Não fique triste
Se eu não liguei
Prá te avisar
Você estava
No escritório
E eu fui embora
Deixei aguadas
As Bromélias
Penduradas na sua mãe
E aquele cara
Na saleta da TV
É o meu pai...
Avise se puder nossos amigos
Que eu não vou mudar
Em todos os lugares
Que você estiver
Eu vou estar
Perto de você
Eu não pude ficar
Tente não me esquecer
Eu vou tentar
Sempre te amar...
Recém chegado
Entediado na rodoviária
Tentei ligar mas
Você não estava
Deu a secretária
Deixei recado avisando
Que te amo e vou voltar
Aquela calça pendurada
No varal é do Rangel...
Avise se puder nossos amigos
Que eu não vou mudar
Em todos os lugares
Que você estiver
Eu vou estar
Perto de você
Eu não pude ficar
Tente não me esquecer
Eu vou tentar
Sempre te amar...(2x)
Comentários
psr4600
18/11/2023
Apenas um complemento. Numa apresentação ao vivo do Bidê ou Balde o Carlinhos Carneiro, ao cantar a parte "aquele cara na saleta da TV é o meu pai", faz o sinal da cruz dando dois entendimentos: a) assim que o pai for visto por alguém esse alguém fará imediatamente o sinal da cruz pela atrocidade que estiver sendo vista; b) o sinal é para garantir ao ouvinte que o pai está mesmo morto. Veja: https://youtu.be/_ZITg_VueC8?t=47
psr4600
18/11/2023
Esta canção apresenta uma narrativa complexa e sombria, na qual um homem parece debochar de uma mulher pelo fato de ela estar triste por ele não ter ligado para avisar sobre sua partida. No entanto, a ironia se revela quando entendemos que ele fugiu antes que ela, que estava em uma Delegacia (o "escritório", um lugar que ele não poderia simplesmente "ir"), pudesse comunicar algo terrível a seu respeito. A subversão da expectativa ocorre quando elementos aparentemente inocentes, como as bromélias deixadas penduradas na mãe da mulher, revelam-se macabros já que aludem ao sangue aguado do assassinato dessa mãe. O homem sente a necessidade de explicar que o homem na saleta da TV é o pai dele porque esse pai se encontra completamente desfigurado após ter sido assassinado. Essa explicação (lógica para a mulher, que conhece o pai dele, mas não o reconheceria em função da desfiguração) aponta para possíveis traumas e conflitos não resolvidos na vida do narrador, sugerindo uma relação tumultuada com o pai, comum em contextos de violência (que defletiram na mulher depois do começo do relacionamento). A menção ao tédio como motivo para ligar à mulher adiciona uma dimensão sinistra à personalidade do narrador, indicando possíveis distúrbios psicológicos associados a suas ações (daí a violência extrema com o pai, com a sogra, com a mulher). A propósito, não se faz ligação telefônica para a pessoa amada, de quem se distanciou, por tédio, mas sim por ânimo, ecstasy. Tédio é uma das características mais marcantes dos assassinos. A promessa de estar sempre presente, seja fisicamente ou nos pensamentos da mulher, ganha uma conotação ameaçadora à luz dessa interpretação, pois em lugares públicos o homem se faz fisicamente presente, mas de longe, observando a mulher; em lugares privados o homem se faz virtualmente presente, de muito perto, nos pensamentos da mulher. O pedido para avisar os amigos em comum sobre o homem não mudar pode ser interpretado como um desafio, sugerindo que o narrador não tem intenção de se esconder (ou, debochando, que a mulher não terá tempo para avisar os amigos antes de algo acontecer com ela), mas sim de manter uma presença constante, talvez até invasiva, na vida da mulher. A menção à rodoviária como um local onde o homem chegou, "misturado no comum de outras pessoas", adiciona uma camada de anonimato e fuga, enquanto a referência à calça no varal associada ao nome "Rangel" sugere uma mudança de identidade (o homem está olhando roupas diferentes daquelas do "eu" antes da fuga e afirmando para si mesmo a nova identidade), indicando que o homem assumiu um novo nome para se camuflar entre as pessoas comuns. Em última análise, essa análise mais profunda da canção (mais profunda que as análise dos posts anteriores) revela nuances e elementos perturbadores que podem não ser aparentes à primeira vista (Bidê ou Balde tem canções controversas, então não seria possível pensar na letra de Bromélia com tamanha apatia). A exploração da dualidade entre a aparente banalidade das situações cotidianas e a intensidade sombria da narrativa proporciona uma compreensão mais rica e provocativa da complexidade emocional e psicológica sugerida pela letra.